segunda-feira, 4 de agosto de 2014

As duas faces


D’um gesto descuidado
O corpo desconfia:
“Quem é essa, do outro lado,
Que me anula e me copia?”

Com olhar ambíguo,
Ora ousado,
Ora esquivo,
Repara, mais de perto,
O excesso e o vazio.

Em trajes taciturnos,
Pele alva,
Lábio rubro,
Revela, mascarada,
O substrato oculto.

De pó branco e voz macia,
Um sorriso dócil encena:
“Hoje, sou Maria
Amanhã, Madalena!"

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Percurso de um vocábulo

Do conceito
Nasce a palavra
Perdida, indefinida
Sintaticamente
Inexistente.

Em vozes vertida
Ganha uso, ganha vida
Desfaz e refaz
A sua morfologia.

Variável em geografia
Mal atribuída
Confundida
Semanticamente
Dependente.

Evocada por mestres,
Drummonds e Severinas,
Enuncia e anuncia
A sua polissemia.

terça-feira, 3 de junho de 2014

Um instante


A cada instante sou uma. Se não fui ou não serei, não o sei. Eu sou hoje, sou agora.

Sou o piscar dos olhos. O bater da asa do beija-flor. O flash da máquina fotográfica. O suspiro de um susto. A angústia dos que esperam.

Eu não espero nada. O futuro não me pertence: eu só pertenço a mim. Embebedo-me de cada palavra que escrevo, que é passado e já não me serve. Quero me ser inteiramente para não perder nenhuma parte da minha integridade. Nenhum resquício do que sou. Quero apossar-me do impalpável fragmento de tempo, que é só meu. Quero tatear o profundo ímpeto de existir. 

Eu deixo-me ser para entender.

Porque os instantes são múltiplos. Mas a essência é uma.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Âmago

Não quero enfeites, nem o excesso.
Como uma música sem melodia,
Como um céu noturno, sem lua,
Como uma palavra sem forma,

Quero-a nua, toda nua.


quinta-feira, 22 de maio de 2014

Multiface

Mais uma vez, atrevo-me a falar do amor. Ou melhor, de um amor. Porque o amor são vários. O amor se transforma, muda de formato, vai e volta. Ou não volta.

Não existe uma única referência para o amor. O amor não é aquilo que a gente vê ou ouve: esse é o amor do outros. O amor tem que ser nosso.

A definição universal do amor não dá conta de sua essência, que, por si, já é fragmentada.

O amor jamais pode ser reduzido ao sublime. O amor também é físico, sujo, às vezes egoísta.

O amor pode nem ser amor. Pode ser engano. Pode ser nada. E o nada revestido de amor pode ser tudo.

Atitudes não determinam o amor: ações sofrem influências. Até as palavras são obstruídas pelo ar e pelo som, ou pelo papel.
 

E tudo se perde.

Procuro exteriorizar o interno, conceptualizar o abstrato, dar forma ao incorpóreo.

E, mais uma vez, fracasso.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

É difícil descobrir com exatidão aquilo que se necessita, e até mesmo penoso. A dor aparenta ser a única força do corpo, expelindo com crueldade qualquer sinal de prazer. Entregar-me, pois, ao sofrimento, só alimenta a fraqueza. Lutar e rebater, no entanto, desgasta, principalmente quando em vão.

Eis que surgem, em algum instante, uma imagem, ato, sentimento, sensação, oriundos sabe-se lá de onde, vitais e renovadores. Breves ou longos, o mais curioso é que não são passíveis de entendimento. Apenas nesse momento percebo que é inútil a procura incessante por aquilo que se imagina ser o ideal. Sem luta e, ao mesmo tempo, sem fuga, permito ao mundo me tomar nas mãos e me fazer sentir, inesperadamente, o que eu própria não saberia desejar.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Uma ou mais vozes

Vozes gritantes
Veementes
Covardes

Tenras
Caducas
Vãs e selvagens

Roucas
Severas
Caladas enfim

São vozes dos outros
De todos
De mim.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Esgotamento


Somente órgão é meu coração.
E a terra dura
É complemento
Dos pés, do tronco, da mão.

Ressecam os olhos
Em vidro moldados
Não riem, não choram:
Ao pó são fadados.

Os lábios serenos
Padecem da vida
Tampouco vivida,
Amada ou sofrida.

Máquina perfeita
Sujeita à imperfeição.
Pele, osso, matéria vil:
É a minha composição!

Ativo ou inativo,
Quente ou frio,
Somente órgão é meu coração.