quinta-feira, 25 de julho de 2013

Do outro lado

De longe, era apenas um ponto. E de perto? Supôs que não poderia saber, pela distância em que se encontrava. Mas não fez questão de se aproximar.

A coisa parecia adquirir novos formatos, depois retornava ao original. A imagem turva provocada por uma visão já prejudicada não definia cores. Era algo meio preto, meio marrom, meio acinzentado.
                
Poderia ser, quem sabe, uma pessoa. Não tinha certeza se os movimentos do ponto eram mero engano de seus olhos. Às vezes, o via aumentar, como se estivesse mais perto, às vezes diminuía, tornando-se quase inexistente.
                
Um ser vivo qualquer. Talvez um animal, uma árvore. Mas aquilo flutuava! Já flutuava antes? Seu entorno era deserto e obscuro. Mesmo iluminado, não teria sido facilmente decifrado.

As coisas mais esquisitas surgiram como possibilidade. Uma nave que logo iria aterrissar. Alguém praticando levitação. Um balão sem força para subir. Uma sombra, um reflexo de um outro ponto qualquer não avistável.

Por um instante, aquilo nem parecia real. Assemelhava-se às figuras distorcidas que só conseguimos enxergar de olhos fechados. Ao menos tinham identidade, sabia-se que eram imaginárias.

Decidiu que não era seguro se aproximar. Se ninguém o havia feito, não ousaria. E, de certo modo, não se sentia mais em conflito.

Apegou-se firme à ideia de que aquilo não seria outra coisa senão um ponto. De que valeria descobrir que fosse diferente? O diferente é desconhecido, portanto, perigoso.

Bastava sabê-lo assim.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Amor

Tentei escrever sobre o amor. 
Saí à procura da rima perfeita, da palavra exata. 
Cada dia, eu rabiscava de um jeito: às vezes, em forma de poesia, 
às vezes, em prosa. 
Não havia sintonia ou qualquer linearidade. 
Tentei descrever as sensações humanas, falar do sublime, do físico, do real e do ideal. As palavras nunca eram as mesmas, não convergiam; apenas se entrecortavam, como se quisessem anular uma à outra.

Juntei toda aquela mistura, de frases e versos fragmentados, 
quando me dei conta: o amor era aquilo.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

"Ele me olhou como se eu fosse uma. Olhou de volta e viu outra. E não entendeu que eu era uma e outra."


"O ser humano julga o tempo inteiro. O ser humano tem preconceitos. O ser humano é hipócrita, egoísta, individualista; não apenas porque o meio social o fez assim, mas porque faz parte de sua natureza.

O que nos torna diferentes não é o que pensamos, o que essencialmente somos, mas o modo como agimos, as escolhas que fazemos ao longo da vida."


"As verdades são muitas. A minha, mistério."


"Pessoas não são divididas entre boas e más, religiosas e não religiosas, santas e vulgares, com e sem caráter. Esse falso maniqueísmo de que o mundo é feito anula as contradições intrínsecas ao ser humano."

sábado, 29 de setembro de 2012

Cárcere libertador

Sentada na poltrona, assisto ao tempo passar. Há pelo menos três relógios no quarto, uma escrivaninha, um papel com alguns rabiscos, uma cama, um armário com roupas que há muito não são usadas e a poltrona que já me tomou posse. Uma vez ou outra pousa um sabiá na janela. Decerto, não é para mim que ele canta.

Se assim a posso chamar, é desse modo que a vida tem sido nos últimos dias: vazia e escorregadia. Eu tento manejá-la, agarrá-la por algum fio condutor, mas ela desliza, escapa, me foge das mãos. Desaprendi a diferença entre o que é sonho e o que é real.

Este corpo já não me diz respeito, já não obedece mais a meus comandos. Ele grita e treme na tentativa inútil de salvar o que ainda resta de mim, de dissolver os tormentos que agonizam o peito. Sinto-me desconectada do mundo, ausente de mim, despersonificada.

Confesso que já sonhei em ser dona do mundo, na época em que ainda existiam sonhos. Hoje, não controlo mais sequer minhas próprias vontades. Eu não sei nem dar nome a elas. Elas se perderam depois de seguidas convulsões.

Sentir é um ato individual, é próprio. O outro não é capaz de compreender, por mais humano e sensível que o seja. E em meio a tantas reflexões, pergunto: a vida de outrora era realmente melhor? Ou foi tudo apenas em esboço de vida, uma concha confortável?  É agora que não enxergo nada, ou antes não enxergava?

Por vezes, penso que teria sido melhor seguir em infinita anestesia. As dores me seriam desconhecidas, os ventos fortes seriam naturais e os dissabores seriam passageiros. Eu perdi o equilíbrio, o ponto de apoio que me sustentava, a integridade que me fazia própria. Os objetos estão distorcidos, as cores estão apagadas, o que era doce virou amargo. Cheguei a acreditar que a vida ao meu redor estava diferente. Mas não: sou eu que estou.

Não imaginava que um ser humano pudesse experimentar todas essas sensações a um só tempo, que se convergem em uma única: a dor de não viver. E não há nada de poético ou de abstrato nisso. Eu sinto a morte, eu vivo a morte.

Eu vejo a minha sombra em todos os cantos do quarto. Eu transfiro toda a minha incompletude aos mínimos enfeites da mesa. Retirei o espelho da parede para não mais ter que encontrar aquele rosto cinzento, impessoal e disforme – não o reconheço. Enceno um sorriso apenas para relembrar o gesto facial. O seu significado é irrecuperável.

E apesar da escuridão que me dá forma, das ideias temerosas e fantasiosas que me dominam, insisto em tentar compreender ao menos parte da minha existência. Loucura não é a perda total da razão: é a busca contínua por ela. Porque não há nada mais desconcertante do que tentar entender.

São nove horas da manhã, é inverno e estamos em julho. Mas poderia ser dezembro, duas horas da madrugada e verão.

sábado, 9 de junho de 2012

Raiz vivaz

Formosa donzela,
Que queres de mim?
Não vês que me escapa
Teu vasto jardim?

Teus nomes são muitos
Teus vales, mistérios
Teus bens mais ilustres
Rastejam discretos.

Crescente império,
De águas ambíguas
Por que não te vertes
Nas sedentas línguas?

Qual musa serena
Tu cantas ao leito;
E uivos, por vezes,
Ecoam no peito.

Mas, ai! Quem me dera
Às mãos enlaçar-te
Impura, singela
Ó, Língua Materna!



Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida. (Clarice Lispector)

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Goles imoderados

Que as gotas calmas que o solo regam
Sejam a causa das noites frias
De chuva densa
Que o corpo gelam.

Que este perfume
De aroma doce
Infiltre a pele
Deturpe a carne
Como se um veneno fosse.

Que a brisa leve que alisa a face
Seja o tufão
E da matéria
No ar em fúria,
A razão!

Que a poesia
De versos crus
Deva seu fruto
À dor real de quem a produz.

Que o sol de inverno
Seja a chama que sustenta
O calor do inferno
(e que o Diabo ostenta).

Que este mel
De todos os dias
Em vinho se converta
E a alma
De amargura
Embebeda!

Pois prefiro
Ao morno,
Ao suave,
Ao puro,
A embriaguez e os delírios
De uma vida – quase morta –
Cujo fim,
Desconhecido,
Pouco importa.

domingo, 23 de outubro de 2011

Coração

Chora, coração
que arrancou-te a dor infinda
a vida breve
em sonho vão
Que o sangue entrelaçado
já vem frio
já vem ralo
que teu ritmo entorpece
a secura que te veste.

Sente, coração
como pulsa a dor latente
que um dia há de calar
o ardor incandescente
Quão pesadas tuas veias
carregam o fluido
úmido
não fossem estas lágrimas
que um dia hão de cessar.

Canta, coração
que o desejo
iminente
a mágoa há de libertar
Que vibrante
o peito grita
entre sonhos,
prantos e cinzas:

– Vive, coração!

sábado, 20 de agosto de 2011

Experiências no irreal

Às vezes, pergunto para as pessoas se elas percebem quando estão sonhando. A resposta negativa é previsível e unânime. Comigo, no entanto, é diferente. Talvez porque eu sempre tenha me interessado por assuntos que envolvem o sonho. É algo fascinante, misterioso, e assusta de uma forma positiva. Mergulhar em outra realidade durante horas é tão próximo do cotidiano e tão distante da minha concepção de comum. Fico imaginando o meu estado de quase absoluta inércia, em contradição com os movimentos falaciosos do corpo ­– meras aparências construídas pelo cérebro.

Nos minutos que precedem o sono, crio suposições a respeito do próximo sonho, sou tomada por uma estranha curiosidade: o que eu vou sonhar, com quem e por quê. Penso nisso até os meus últimos instantes de raciocínio, pouco antes do primeiro passo da transição. Nesse meio-termo, as imagens começam a ser projetadas pelo meu inconsciente, e as situações são cada vez mais elaboradas, à medida que o sono caminha para um nível mais profundo. O resultado disso tudo pode responder à primeira pergunta em questão: sim, eu sei quando estou sonhando.

Não é sempre, nem por acaso, que acontece. Em momentos anteriores na cama de maiores reflexões, eu consigo identificar, ao imergir no sonho, a vulnerabilidade do ambiente, as atitudes estranhas das pessoas e a ausência de sentido nos fatos. Em seguida, constato: é um sonho. É como se ele fosse um terreno contíguo à realidade, onde meus pensamentos ininterruptos não perdessem a referência do real.

Confesso que já me aproveitei de tal peculiaridade para me livrar de situações perigosas. Em um pesadelo, quando um homem que me perseguia me encontrou – o motivo da perseguição desconheço –, eu não corri, eu não gritei, eu não chorei. Fui movida por um instinto natural, lógico e espontâneo: fechei os olhos. O cenário em minha volta é apenas projeção do meu inconsciente, pensei. Aquilo não era real. Se tudo, inclusive o homem, era pura criação minha, por que não adaptar aquela vida provisória a meu modo? No escuro, concentrei-me para apagar a presente imagem e dar lugar a uma nova, que conheci ao abrir os olhos. Foi muito satisfatório.

N’outras vezes, lembro-me agora, já me encarreguei de procurar uma Fada Azul no sonho, em aposta com meu irmão na vida real. A ideia surgiu com o filme que assistimos, “Inteligência artificial”, em que o protagonista passa grande parte da história tentando encontrar a Fada Azul – mas isso não vem ao caso. O desafio era testar a minha capacidade, ou não, de lembrar, durante o sonho, o acordo estabelecido. Não foi no primeiro, mas aconteceu. Sonhando justamente com meu irmão, eu disse contente: “Lembra? Temos que procurar a Fada Azul!”. Ele apenas sorriu. Não me recordo de mais nada. Por que não escolhi uma tarefa menos complicada?

Recentemente, vivi uma situação um pouco diferente. Dessa vez, nada foi combinado antes de dormir. Eu estava na rua, já no meio de um sonho, quando percebi que não estava acontecendo de verdade. Rodeada de pessoas, resolvi perguntar para uma delas – conhecida minha – algo que de fato me interessava saber. A resposta que recebi não foi de modo algum aleatória: o que eu esperava ouvir, mas não necessariamente o que eu queria ouvir. O que eu penso de alguém ou o que eu imagino que pensa reflete na criação que o meu inconsciente faz das pessoas. Portanto, acredito, se um dia eu estiver confusa quanto aos meus julgamentos, posso recorrer ao sonho para eliminar minhas dúvidas. O nosso real sentimento está sempre lá, em algum lugar da nossa mente.

A mais antiga, talvez a primeira das experiências, consistiu em um sonho mais descontraído. Eu era criança, e observei nos desenhos animados que alguns personagens se mexiam na cama de acordo com as ações que praticavam no sonho. Decidi testar a veracidade daquilo. Sonhei com um gramado de um sítio enorme, onde pude correr rapidamente e com passos largos. Acordei desapontada, lembrando que não havia ninguém ali para testemunhar o possível movimento das minhas pernas.

A última experiência memorável ocorreu não há muito. Lembro-me de estar lendo, não sei se livro ou revista, sem ninguém por perto. Não havia coerência na construção das frases, como se fosse apenas um fluxo de palavras. A parte interessante veio depois. Ao me dar conta de que aquilo era um sonho, pensei em tudo o que poderia estar escrito. A aparição instantânea das palavras pensadas, agora com sentido, me possibilitou a ler exatamente o que eu queria. Estava tudo sob o meu domínio.

Como mostra algumas definições no dicionário Houaiss, inconsciente significa 1. automático, maquinal, involuntário 2. que ou o que não pode ser percebido pelo indivíduo que o vivencia 3. que ou quem não se dá conta de certas coisas, não percebe as circunstâncias a sua volta. O que explica, então, a minha condição de controle do inconsciente, a partir de uma consciência plena de que aquilo não é real? Escrevo não para encontrar respostas prontas e imediatas, tampouco para fazer delas uma verdade. Porque, se um dia, as explicações forem todas precisas e científicas, não mais haverá razão para sonhar.

domingo, 3 de abril de 2011

O ângulo feminino


Fugindo ao padrão literário do blog, escrevo hoje para registrar uma opinião adversa à lógica de uma sociedade machista. Costumamos, desde criança, entender o preconceito como algo recorrente no dia-a-dia, mas que deve ser abolido. Quando digo preconceito, refiro-me a todos eles. Percebo hoje, no entanto, que só podemos compreendê-lo de fato quando o sentimos. Menos condenável que os demais, sem dúvida, mas não menos sofrido para quem sente, o preconceito com a mulher no futebol foi o tema escolhido para este pequeno desabafo.

Está certo que a mulher, de uns tempos pra cá, vem conquistando o seu espaço no universo do futebol. Já temos hoje, por exemplo, presidenta de clube e inclusive árbitras (“bandeirinhas”). Mas o ponto crucial para este debate é discutir a mulher no âmbito de torcedora: é aonde eu me encaixo nesta história.

Reconheço – e aceito – que a grande maioria feminina não se interessa por futebol, ou até se interessa, mas pouco acompanha. Por uma questão biológica ou não, há uma forte tendência do homem a gostar do esporte, tanto de assistir como jogar. E eu não julgo, nem subestimo, essa porcentagem de mulheres que não gostam. Elas não têm a obrigação de acompanhar e muito menos de entender as regras do jogo. Mas, e a outra pequena porcentagem, onde fica?

A outra porcentagem é aquela estigmatizada pelas opiniões masculinas; aquela que sofreu generalizações, que nos tornaram alvo de piadas machistas e de comentários como “mulher não entende, só torce.” Não nego a existência de torcedoras com este perfil, mas, assim como há as mulheres, existem também os homens pseudo-fanáticos. São os chamados “torcedores de modinha”. Não fazem ideia do que aconteceu no decorrer do campeonato, não sabem quais adversários o seu time enfrentou, mas se está lá na final, vão ao estádio e comemoram o título com orgulho. É claro que, para o homem, isso não será um problema. Porque “homem entende de futebol.” A mulher é que vai sofrer o preconceito, por ser um “ser limitado quando o assunto é futebol.”

Em meu nome, e no de todas as leitoras que se identificaram nesta parcela injustiçada, eu digo: nós não vamos aos estádios para “enfeitar as arquibancadas”, como é de praxe ouvir dos narradores de jogos. E, menos ainda, para “olhar as pernas dos jogadores” (essa é para rir) ou então “tirar onda”. Nós também entendemos a regra do impedimento – e as demais –, também entendemos a organização e o esquema de cada campeonato, também sabemos a escalação completa do nosso time. Se vamos aos estádios, é porque gostamos de assistir aos jogos, apreciamos o bom futebol, e, sobretudo, porque dedicamos amor incondicional ao nosso time. A alegria de comemorar uma vitória não é efêmera, não cessa no momento do apito final. É uma alegria que faz parte do nosso trajeto como torcedoras, que altera o nosso humor cotidiano, e que nos envolve durante todo o período do campeonato. Obviamente, nem sempre é a alegria que reina no fim.

Resumindo o que eu queria dizer: não precisamos ser homens ou possuir qualquer indício de masculinidade para gostar de futebol. Somos nós mesmas, mulheres. A diferença é que usamos maquiagem, colocamos salto alto, e somos, digamos, mais sensíveis. Nada que nos impeça de amar e entender o futebol, até excedendo, em alguns casos, o interesse dos homens.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

A natureza da criação

Não me condenes pelas minhas chuvas de tristeza
pelo meu trovejar de raiva
pelos meus ventos descoordenados
Também sei florir
também posso ser luz
Por vezes como a lua
de um brilho tímido e frio
por outras, como o sol
que arde e faz arder.